9.7.17

"sacos plásticos"


nalgum ponto do dia ou
nalgum ponto da noite em
qualquer cidade em que esteja,
guardo os sacos bons, os resistentes,
sacos fortes onde caiba todo lixo.

geralmente são amarelos,
poucas vezes cor de rosa,
muitos sacos vem furados
e, através dos furos no plástico,
posso ver meus pés destruídos.

tornei-me, vagarosamente,
nos intervalos dos golpes,
um recolhedor de sacos bons,
sempre à procura do mais firme,
do mais gracioso e colorido saco.

por vezes me bato com as velhinhas
nas padarias e nos supermercados,
elas, com menos tempo que eu,
também sabem quanto vale um saco,
um saco firme, resistente, para todo lixo.

com menos tempo elas precisam de sacos
ainda mais confiáveis do que eu,
porque, com tantos sacos frágeis e furados
que passam pelas mãos de uma pessoa,
se faz um lixo pesado, um lixo de pedra.

às vezes tenho pena de usar sacos bons
quando o lixo ainda não está pela boca.
me parece um desperdício de firmeza
e nessas horas recorro aos sacos piores
na expectativa de não me sujar demais.

ontem consegui dois sacos ótimos,
um verde cor de bosta de cavalo,
como os olhos tristes do meu pai;
um azul como imagino ser a morte,
um lugar sem lixo e sem sacos plásticos.