22.8.17

"a cidade"


faço os supercílios de escovas
para arrancar meu corpo da cruz
e trazer algodões doces na alma.
assobiar os lamentos sanguíneos
aos que amam e aos que perdem.
obedecer ao sacrilégio das patas
que com cascos sabem dar adeus.
com a benção do poder superior
honrar os beijos dos iniciantes
sem temer que o cinza que se vê
nos lábios que eu faço de cinzel
seja tudo que não vi quando fiz
da língua um barbante de limo
e da poeira aos poucos o rastro
verde de um catarro aniquilado.
faço das unhas nas paredes a voz
que como nada mais pode perder
avança sem pensamento no vazio
da ruga ancestral que emporcalha
a beleza da queda pela melhoria
com que torço como se parafusos
orelhas ao premeditar minha fuga.

"dentes de carne"


azul como o que cerca
teus dentes de carne.
o mistério da máquina
sufoca a voz do ventre
e geme de luz o olho.
penélope charmosa
cavalga cão rabugento
no desafio das cores
que se abrem no leque
da carne estapeada
no mistério da morte.
calamos de cócoras
amor a contra-vento.
zunimos em sonhos
umedecidos de pus.
não sabemos mais
que olhos beijamos.
estamos aturdidos
à margem do caos.
margear entranhas
na ponta do delírio
azul como o que cerca
teus dentes de carne
vento frio que faz alma
na garganta do teu cio.

"para meu amor, da cidade de gelo"


eu sinto muito, meu amor
que a rainha dos dragões
não poderá de fato salvar
o tal mundo de gelo nosso
e que as coisas perderão
mais uma vez o sentido
depois que não há mais
dragões cuspindo fogo
nem donzelas platinadas
ou sanguinários atraentes.

mas o que sinto por você
quero que também saiba
cuspir fogo para manter
pulsante o que é de gelo
no jogo entre selvagens
o escambo entre zumbis
a grande muralha de fel
e que a nossa imaginação
seja capaz de cuspir fogo
ainda por muitas dinastias.

andar no fogo é preciso
para manter os dragões
seguros e dóceis e a crise
do outro lado do fim.

os impérios são fantasias
e os escombros da causa
sobrevoam nossas ruínas.

não é possível afinal
que alguém siga
do gelo ao fogo em tão pouco tempo.

provavelmente a partir de agora os dragões
monstros lindos que todos aguardamos
terão olhos frios e fuzilarão com neve
a nossa parca cidadela.

não haverá os intervalos eletrizantes
enquanto nada mais no mundo acontecia
e nós sonhávamos com deusas mexicanas platinadas
voando por sobre a costa das montanhas
com seu eunuco de estimação.

a cidade dos nossos sonhos não existe mais
e precisamos engolir os restos
para excretar nossa imaginação.

e assim criar novos monstros alados
que se moldem com singeleza nos bolsos do nosso afeto
e que possamos nomear enquanto desaparecemos.

20.8.17

"para amigos que me amam"






é um pouco preocupante
que se esteja velho o suficiente
para que o mundo não seja
jamais liderado por dragões
ventríloquos – só de imaginar
já me sinto um otário pleno
e meus amigos que mais amo
e que são dragões com estirpe
também arregalam os olhos
apesar de toda habilidade
em pensar que já estamos
juntos mas o quanto mais
amo nessa esfera morreria
como amante inglês deslocado
que mente sobre malcolm lowry.

todos sabemos do que estamos
falando quando damos as mãos.

isso é lindo o sorriso que estanca
como tudo seja patético levemos
seriamente nossa violência ímpar
sem vergonha naquilo que range.

como nossa amizade é comprida
e que companhia pode entrar aí
nesse buraco que dizes é belo?

são as tias das antigas sungas
quando eras gordo e todo teu
excremento era teu orgulho.

existe essa coisa muito louca
que é nos amarmos sem mérito.

és companhia e não sabes mais
que diabos farás com os lábios
para ser essa coisa terna labial
e como empresa de outras leis
pessoas como nós e que dizem
cuidado com a rua você pode
morrer assim estamos juntos.

cheguei em casa os gatos não
comem como se me amassem.

existe algo grave que termina
terrível destino dos meus pés
como alguém sério anti-crime
e tal o susto da falta de balões.

ao mesmo tempo alguém ruim
para ser amado ajudado anulado
algo que seria vitória para quem
não ama e mostra como se vive
algo que um coitado diga é belo.

somos os coitados e adoramos
o amor que não se colhe fino
mas se diz marotamente ajudo.

colhe-se grosso no medo temo
perder o estilo a fome rude sim
da barriga cheia sem entender
que não se leva nada senão
o ódio de si mesmo ao ponto
de amar-se como uma loucura
e pedirmos tolos a quem se ama
que não envelheça fora de nós.

os coitados sem ação plena                           
que não voltem assim sós
para casa é perigoso é frio
mas o calor é a maior idéia
do mundo em pleno inverno.

a estupidez o amor a falha veja
é a coisa mais bonita e temos
calos o suficiente para dizer:
sacolas na mão não reclame.

5.8.17

"minha fase melodia"



houve uma época sinistra
em que eu não fazia outra coisa
senão ouvir pérola negra.

eu sabia que o luiz melodia
era muito louco e todo mundo tinha
uma história sobre ele ou com ele.

meu pai me contou algumas
que eu não me lembro mais.

mas ele fazia coisas impensáveis
como expulsar a banda toda
e gravar os instrumentos sozinho.

são muitas as terríveis anedotas
sobre as grandes lendas do tempo.

aliás, havia o fato de que na vida
as coisas iam pouco favoráveis –
eu ainda não sabia que seria assim
e naquela época eu ainda andava
assobiando de olhos esbugalhados
quando escapava aos automóveis
enquanto estourava luiz melodia
nos meus ouvidos ainda virgens
e eu gritava de olhos fechados
beibe te amo, nem sei se te amo
e aquilo seria a vida até o fim.

por um ou dois meses talvez um ano
foi só o que fiz e isso não me salvou.

mas era importante virar a esquina
como se fosse alguém perto da morte.

enquanto eu ouvia pérola negra
era charmoso querer morrer de vez.

3.8.17

"quando você viaja"


para bichita

quando você viaja
por um ou dez dias
eu deixo de ler os vivos
eu perco o sonho na rua
violo a desgraça da vida.

quando você viaja
as coisas ficam todas
me olhando com raiva
eu me ressinto de falar
e nunca eu falo tanto
quanto quando você viaja.

no primeiro dia os gatos
se aproximam como padres
para uma extrema-unção
sem ti eles vivem porque
podem me cuidar
pobre de mim
a quem resta alisar
seus pelos pois que os gatos
eu sei são o elo da nossa loucura
nesse mundo de adultos.

mais à noite escarro tufos
inapeláveis porque você
entorta meus ponteiros
arromba meus instintos
e eu sei que a situação
é preocupante eu deveria
estar falando sobre
a experiência acachapante
de estar vivo num mundo
que enlouqueceu eu queria
fazer um poema sobre sermos
fortes e dignos apesar de tudo
enquanto ainda precisarmos
salvar o mundo de nós
eu gostaria de fazer um poema
que servisse para alguma coisa.

inevitavelmente você viaja
por um ou dez dias você
crava as garras no mapa
e me firo com as esporas
de uma vida sem salvação.

os amigos ainda falam
parecem todos que bom
mais lúcidos do que eu.

alguns acenam do outro
lado da rua no que surdo
meu coração estremece.

então a rua se arromba
nesse abismo intocável
violácea lembrança
de meus pulsos ruins.

eu preciso ouvir você
respirar no meu ouvido
e mesmo com sinusite
eu quero que você volte
para rachar meu crânio
com espadas de amor.

durmo e não transpiro
enquanto te imagino
amazona inquebrantável
arrastando com distância
meus planetas mortais.

22.7.17

“você adoece”


gritamos e apontamos dedos
um para o outro porque somos
dois operários exaustos de folga
dois operários que não sabem
se poderão sem perder a vida
permanecer operários não artistas
porque artistas são tua coca-cola zero
artistas são meu pão-doce subindo a escada.

simbolizamos juntas doídas e fuligem
despejadas em nossa cara comum.

gritamos um com o outro porque
o amor é uma palavra paupérrima
o amor é um operário de fábrica
ele precisa torcer-se ao meio para
que os descansados procriem futuro.

o amor é um sofrimento dizia
aquela atriz melancólica
que achamos muito velha
para fazer aquele papel
e eu argumentei mas em 1905
ter trinta e cinco era ser velhíssimo
e ser melancólico era ter juventude.

gritamos um com o outro apontamos
nossos dedos porque queremos mostrar
ao amor o caminho essa peste bubônica.

um pouco mais para a esqueda direita
passos rápidos agora sente no meu colo.
gritamos um com o outro ainda temos
dedos porque somos um ponto vermelho
no mistério negro arco da estratosfera.

gritamos um com o outro você adoece
tenho raiva porque teus olhos queimarão
de febre por algo que não será mais eu.

9.7.17

"sacos plásticos"


nalgum ponto do dia ou
nalgum ponto da noite em
qualquer cidade em que esteja,
guardo os sacos bons, os resistentes,
sacos fortes onde caiba todo lixo.

geralmente são amarelos,
poucas vezes cor de rosa,
muitos sacos vem furados
e, através dos furos no plástico,
posso ver meus pés destruídos.

tornei-me, vagarosamente,
nos intervalos dos golpes,
um recolhedor de sacos bons,
sempre à procura do mais firme,
do mais gracioso e colorido saco.

por vezes me bato com as velhinhas
nas padarias e nos supermercados,
elas, com menos tempo que eu,
também sabem quanto vale um saco,
um saco firme, resistente, para todo lixo.

com menos tempo elas precisam de sacos
ainda mais confiáveis do que eu,
porque, com tantos sacos frágeis e furados
que passam pelas mãos de uma pessoa,
se faz um lixo pesado, um lixo de pedra.

às vezes tenho pena de usar sacos bons
quando o lixo ainda não está pela boca.
me parece um desperdício de firmeza
e nessas horas recorro aos sacos piores
na expectativa de não me sujar demais.

ontem consegui dois sacos ótimos,
um verde cor de bosta de cavalo,
como os olhos tristes do meu pai;
um azul como imagino ser a morte,
um lugar sem lixo e sem sacos plásticos.

27.6.17

"poema de fazer rir"


tenho  lido poemas engraçados
sobre como a vida tem sido polaca
espremida como laranja nas vielas
das nossas imensas frustrações.

sem que nos dessem maquiagem
aprendemos a fazer rir e chorar
talvez a única coisa que assuste
os mal-humorados que mandam.

quanto mais batem, mais rimos
parece que também fizeram isso
muitas vezes em horas históricas
como na comuna e nas prisões.

se não delatamos nos batem mais
é quando os poemas se colorem
e os dentes caem num estilhaço –
estamos muito juntos nessa hora.

não sei se os poemas fazem rir
porque nos amamos ou porque
temos medo de perder o amor
que inventamos por tão tê-lo.

doces são os vícios do medo
o que ele acomoda em vasos
quando rimos do que à frente
mata rindo porque é sem saída.

queridos poetas, amigos rindo
permaneçam mesmo quando
eu estiver sob a corda rígida.

levarei o desespero dos lábios
como se fosse a maior coragem.
você eu levarei na gargalhada
daquele que viu, mas sem tocar
e do que viu pôde fazer a cópia
para pôr em poemas sem risco.

a vida é dura sem teu velho lirismo,
um roupão usado por um gênio dopado.
ser ingênuo tem a vantagem de ser belo,
então corres, fraturas, gargalhas, temes.
por onde vais, já ninguém mais cogita.
o que temes, trata-se disso em reuniões fechadas.

a vida é dura sem um cometa,
ser mais velho é não poder errar e errar mais
às vezes forjar que erra menos, sabendo a verdade.
de dia atuas, dás voltas e voltas, falas rápido,
mas tremes com o gesto discreto do outro.
estás completamente rouco da fala do mundo
e no fundo pensas que estás noutro planeta,
onde os poemas foram feitos para fazer rir
e a vida que tentamos viver para fazer morrer
tudo o que neste poema iria melhor calado.
.


20.6.17

"sobre porcos abatidos em casa"


com a doçura que nos é particular,
somos porcos abatidos em casa.
longe dos abatedouros industriais,
estudamos a estética dos porcos para,
no momento do abate íntimo,
entre paredes reconhecíveis,
termos um último discurso válido.
queremos entender, queremos pertencer
ao pensamento que nos revela:
é melhor ser abatido em casa
do que no negrume do povo incompreensível,
pelado, em praça pública, jesuítas nus pendurados
em cruzes metafísicas, queimados com água vulcânica,
empalados por ideias boas e lindos julgamentos.
os senhores gordos, de largas desenvolturas
estéticas sobre a questão da flatulência intelectual,
são os senhores do nosso abatedouro caseiro.
nerudas, bretons, picassos, riveras, balzacs,
eles nos bezuntam com gema nobre,
enfiam maçãs de escárnio em nossas bocas.
mesmo que sejamos carinhosamente abatidos
dentro das paredes consoláveis da nossa gorda percepção,
ainda precisamos limpar as fezes dos senhores gordos
que nos dão de comer até a hora precipitada.
somos lindos e nossas peles rosadas, anti-industriais,
bem diferentes do tom cinza que domina o nosso alvo de amor,
nossas bocas abertas em grito de ternura,
nossa paz de morrer abatidos com machados de plumas,
tudo isso será riscado em pedra sobre os nossos restos.
virão os dóceis dar-nos nomes bonitos e geracionais,
virão os recalcados cuspir em nossas preces.
nossos senhores, depois de pedir aos senhores deles,
ganharão um jardinzinho feliz onde nos alojar,
com gramas poéticas e fardos de nuvens feito sonhos.
engordamos às vistas dos senhores,
eles são firmes em nos mostrar,
trazendo-nos pelos focinhos,
a brandura do nosso excremento bem cuidado.
e até o ponto em que nos abaterem,
estaremos plenos diante da grandeza da nossa cor rosada,
estaremos quase felizes diante dessa palavra, rosada,
que nem mesmo os homens gordos desvendaram.
seremos a tranquilidade da lâmina que permite um bom corte
e todos tocarão em silêncio o que existe
fora do que se reverbera em público.
e seremos poetas sublimes, enfim.

9.6.17

"entorse"


tudo rubro por enquanto fora as fossas
sair da caverna é como conquistar o cume
perceber quão alto é possível morrer no chão
trazer tudo agora é deixar a pia suja
refestelar a minhoca que vive na cabeça
diagnosticar por uma semana o poder da crise
tudo rubro por enquanto fora o medo
caímos violentos das árvores do coração
é preciso pedir ao chefe que não se iluda
dizer aos amigos a mímica do amor possível
afetos nas bigornas da praça de execução
caímos aos punhados e fechamos os punhos
pobres de nós tão bonitos sem as cabeças
cortamos as camisas para comparar cicatrizes
lambemos verdades que nunca fogem à noite
pequenas cartilagens crescem no vazio do osso
resta afundar a cabeça em travesseiros épicos
consertar o rádio, comprar uma joelheira
para que nada te impeça de implorar guarida
de coisas pequenas que roem as cartilagens
enquanto procuras romantismo nos bolsos
apenas para explodir num turbilhão de rotas
incrementar a punição da tua invencionice
dizer com tendões que deus pode demorar. 

30.5.17

EXTRA EXTRA!!! JAMES BALDWIN IMPERDÍVEL!




O texto “Notas de um filho desta terra”, do inigualável James Baldwin – que foi totem de toda uma geração de excluídos, na literatura tanto quanto em suas vidas, e que existe até hoje, ainda em guetos, sustentando-se com farelos de afeto em prata comum –, publicado na Revista Serrote #15, na tradução de Donald M. Garschagen, é de uma literalidade e consciência que, raríssimas vezes, como se sabe, podemos encontrar juntas num mesmo escritor. É joia pura do início ao fim, e um passeio pelos nossos temores, nossos amores, nossas lacunas – assim como as da História.

Deixo um trechinho, logo após uma insurgência no Harlem...

“Na verdade, eu não me dera conta de que o Harlem tinha tantas lojas até todas arrasadas. A primeira vez que a palavra riqueza entrou na minha cabeça aplicada ao Harlem foi quando a vi dispersa nas ruas. Mas a primeira impressão incongruente da abundância foi imediatamente neutralizada por uma impressão de desperdício. Nada daquilo fazia bem algum a quem quer que fosse. Teria sido melhor terem deixado as vidraças e as portas de vidro como estavam e as mercadorias dentro das lojas. Teria sido melhor, mas também impossível, pois o Harlem tivera necessidade de alguma coisa para quebrar. Quebrar coisa é a necessidade crônica do gueto. Na maior parte do tempo, os habitantes do gueto quebram uns aos outros ou a si mesmos. Mas, enquanto as paredes do gueto estiverem de pé, sempre chegará o momento em que essas válvulas de escape não vão funcionar. Naquele verão, por exemplo, não bastava um sujeito arrumar uma briga na avenida Lenox ou esculachar os amigos nas barbearias. Se algum dia, de fato, a violência que enche as igrejas, os salões de sinuca e os bares do Harlem irromper de uma maneira mais direta, é provável que o Harlem e seus habitantes desapareçam numa inundação apocalíptica. O fato de não ser provável que isso aconteça se deve a grande número de razões, na maioria ocultas e fortes, entre elas a relação real do negro com o branco americano. Essa relação simplesmente proíbe uma coisa tão descomplicada e satisfatória como o ódio puro e simples. Para odiar de verdade os brancos, o negro apagar tanta coisa na mente – e no coração – que esse ódio se torna, ele próprio, uma pose exaustiva e autodestrutiva. Mas isso não quer dizer, por outro lado, que o amor venha com facilidade: o mundo branco é demasiado poderoso, complacente e ágil com humilhações gratuitas e, sobretudo, demasiado ignorante e inocente para isso. As pessoas são forçadas a fazer ressalvas perpétuas, e suas próprias reações estão sempre se anulando mutuamente. É isso, na verdade, que tem levado a todos, brancos e negros, à loucura. As pessoas estão sempre na situação de decidir entre a amputação e a gangrena. A amputação é rápida, mas o tempo pode mostrar que ela não era necessária – ou pode-se protelar demais a amputação. A gangrena é lenta, mas é impossível ter certeza de que se está lendo direito os sintomas. A ideia de passar o resto da vida aleijado é insuportável, como é da mesma forma intolerável o risco de inchar lentamente, e com agonia, devido ao veneno. E o problema, enfim, é que os riscos são reais, mesmo que não haja opções”.

***

“para james baldwin”

na maior parte do tempo
 os habitantes do gueto
quebram uns aos outros
ou quebram a si mesmos.

no gueto nada foge nunca
os habitantes do gueto
ou sofrem de gangrena
ou da perna que se amputa.

aqui servimos ao profeta
declama o pastor negro.
aqui ressalvas perpétuas
matam o gueto de medo.

mas chegará o momento
em que sumirá o gueto
numa inundação oculta.
lá fora restará a loucura.