9.7.17

"sacos plásticos"


nalgum ponto do dia ou
nalgum ponto da noite em
qualquer cidade em que esteja,
guardo os sacos bons, os resistentes,
sacos fortes onde caiba todo lixo.

geralmente são amarelos,
poucas vezes cor de rosa,
muitos sacos vem furados
e, através dos furos no plástico,
posso ver meus pés destruídos.

tornei-me, vagarosamente,
nos intervalos dos golpes,
um recolhedor de sacos bons,
sempre à procura do mais firme,
do mais gracioso e colorido saco.

por vezes me bato com as velhinhas
nas padarias e nos supermercados,
elas, com menos tempo que eu,
também sabem quanto vale um saco,
um saco firme, resistente, para todo lixo.

com menos tempo elas precisam de sacos
ainda mais confiáveis do que eu,
porque, com tantos sacos frágeis e furados
que passam pelas mãos de uma pessoa,
se faz um lixo pesado, um lixo de pedra.

às vezes tenho pena de usar sacos bons
quando o lixo ainda não está pela boca.
me parece um desperdício de firmeza
e nessas horas recorro aos sacos piores
na expectativa de não me sujar demais.

ontem consegui dois sacos ótimos,
um verde cor de bosta de cavalo,
como os olhos tristes do meu pai;
um azul como imagino ser a morte,
um lugar sem lixo e sem sacos plásticos.

27.6.17

"poema de fazer rir"


tenho  lido poemas engraçados
sobre como a vida tem sido polaca
espremida como laranja nas vielas
das nossas imensas frustrações.

sem que nos dessem maquiagem
aprendemos a fazer rir e chorar
talvez a única coisa que assuste
os mal-humorados que mandam.

quanto mais batem, mais rimos
parece que também fizeram isso
muitas vezes em horas históricas
como na comuna e nas prisões.

se não delatamos nos batem mais
é quando os poemas se colorem
e os dentes caem num estilhaço –
estamos muito juntos nessa hora.

não sei se os poemas fazem rir
porque nos amamos ou porque
temos medo de perder o amor
que inventamos por tão tê-lo.

doces são os vícios do medo
o que ele acomoda em vasos
quando rimos do que à frente
mata rindo porque é sem saída.

queridos poetas, amigos rindo
permaneçam mesmo quando
eu estiver sob a corda rígida.

levarei o desespero dos lábios
como se fosse a maior coragem.
você eu levarei na gargalhada
daquele que viu, mas sem tocar
e do que viu pôde fazer a cópia
para pôr em poemas sem risco.

a vida é dura sem teu velho lirismo,
um roupão usado por um gênio dopado.
ser ingênuo tem a vantagem de ser belo,
então corres, fraturas, gargalhas, temes.
por onde vais, já ninguém mais cogita.
o que temes, trata-se disso em reuniões fechadas.

a vida é dura sem um cometa,
ser mais velho é não poder errar e errar mais
às vezes forjar que erra menos, sabendo a verdade.
de dia atuas, dás voltas e voltas, falas rápido,
mas tremes com o gesto discreto do outro.
estás completamente rouco da fala do mundo
e no fundo pensas que estás noutro planeta,
onde os poemas foram feitos para fazer rir
e a vida que tentamos viver para fazer morrer
tudo o que neste poema iria melhor calado.
.


20.6.17

"sobre porcos abatidos em casa"


com a doçura que nos é particular,
somos porcos abatidos em casa.
longe dos abatedouros industriais,
estudamos a estética dos porcos para,
no momento do abate íntimo,
entre paredes reconhecíveis,
termos um último discurso válido.
queremos entender, queremos pertencer
ao pensamento que nos revela:
é melhor ser abatido em casa
do que no negrume do povo incompreensível,
pelado, em praça pública, jesuítas nus pendurados
em cruzes metafísicas, queimados com água vulcânica,
empalados por ideias boas e lindos julgamentos.
os senhores gordos, de largas desenvolturas
estéticas sobre a questão da flatulência intelectual,
são os senhores do nosso abatedouro caseiro.
nerudas, bretons, picassos, riveras, balzacs,
eles nos bezuntam com gema nobre,
enfiam maçãs de escárnio em nossas bocas.
mesmo que sejamos carinhosamente abatidos
dentro das paredes consoláveis da nossa gorda percepção,
ainda precisamos limpar as fezes dos senhores gordos
que nos dão de comer até a hora precipitada.
somos lindos e nossas peles rosadas, anti-industriais,
bem diferentes do tom cinza que domina o nosso alvo de amor,
nossas bocas abertas em grito de ternura,
nossa paz de morrer abatidos com machados de plumas,
tudo isso será riscado em pedra sobre os nossos restos.
virão os dóceis dar-nos nomes bonitos e geracionais,
virão os recalcados cuspir em nossas preces.
nossos senhores, depois de pedir aos senhores deles,
ganharão um jardinzinho feliz onde nos alojar,
com gramas poéticas e fardos de nuvens feito sonhos.
engordamos às vistas dos senhores,
eles são firmes em nos mostrar,
trazendo-nos pelos focinhos,
a brandura do nosso excremento bem cuidado.
e até o ponto em que nos abaterem,
estaremos plenos diante da grandeza da nossa cor rosada,
estaremos quase felizes diante dessa palavra, rosada,
que nem mesmo os homens gordos desvendaram.
seremos a tranquilidade da lâmina que permite um bom corte
e todos tocarão em silêncio o que existe
fora do que se reverbera em público.
e seremos poetas sublimes, enfim.

9.6.17

"entorse"


tudo rubro por enquanto fora as fossas
sair da caverna é como conquistar o cume
perceber quão alto é possível morrer no chão
trazer tudo agora é deixar a pia suja
refestelar a minhoca que vive na cabeça
diagnosticar por uma semana o poder da crise
tudo rubro por enquanto fora o medo
caímos violentos das árvores do coração
é preciso pedir ao chefe que não se iluda
dizer aos amigos a mímica do amor possível
afetos nas bigornas da praça de execução
caímos aos punhados e fechamos os punhos
pobres de nós tão bonitos sem as cabeças
cortamos as camisas para comparar cicatrizes
lambemos verdades que nunca fogem à noite
pequenas cartilagens crescem no vazio do osso
resta afundar a cabeça em travesseiros épicos
consertar o rádio, comprar uma joelheira
para que nada te impeça de implorar guarida
de coisas pequenas que roem as cartilagens
enquanto procuras romantismo nos bolsos
apenas para explodir num turbilhão de rotas
incrementar a punição da tua invencionice
dizer com tendões que deus pode demorar. 

30.5.17

EXTRA EXTRA!!! JAMES BALDWIN IMPERDÍVEL!




O texto “Notas de um filho desta terra”, do inigualável James Baldwin – que foi totem de toda uma geração de excluídos, na literatura tanto quanto em suas vidas, e que existe até hoje, ainda em guetos, sustentando-se com farelos de afeto em prata comum –, publicado na Revista Serrote #15, na tradução de Donald M. Garschagen, é de uma literalidade e consciência que, raríssimas vezes, como se sabe, podemos encontrar juntas num mesmo escritor. É joia pura do início ao fim, e um passeio pelos nossos temores, nossos amores, nossas lacunas – assim como as da História.

Deixo um trechinho, logo após uma insurgência no Harlem...

“Na verdade, eu não me dera conta de que o Harlem tinha tantas lojas até todas arrasadas. A primeira vez que a palavra riqueza entrou na minha cabeça aplicada ao Harlem foi quando a vi dispersa nas ruas. Mas a primeira impressão incongruente da abundância foi imediatamente neutralizada por uma impressão de desperdício. Nada daquilo fazia bem algum a quem quer que fosse. Teria sido melhor terem deixado as vidraças e as portas de vidro como estavam e as mercadorias dentro das lojas. Teria sido melhor, mas também impossível, pois o Harlem tivera necessidade de alguma coisa para quebrar. Quebrar coisa é a necessidade crônica do gueto. Na maior parte do tempo, os habitantes do gueto quebram uns aos outros ou a si mesmos. Mas, enquanto as paredes do gueto estiverem de pé, sempre chegará o momento em que essas válvulas de escape não vão funcionar. Naquele verão, por exemplo, não bastava um sujeito arrumar uma briga na avenida Lenox ou esculachar os amigos nas barbearias. Se algum dia, de fato, a violência que enche as igrejas, os salões de sinuca e os bares do Harlem irromper de uma maneira mais direta, é provável que o Harlem e seus habitantes desapareçam numa inundação apocalíptica. O fato de não ser provável que isso aconteça se deve a grande número de razões, na maioria ocultas e fortes, entre elas a relação real do negro com o branco americano. Essa relação simplesmente proíbe uma coisa tão descomplicada e satisfatória como o ódio puro e simples. Para odiar de verdade os brancos, o negro apagar tanta coisa na mente – e no coração – que esse ódio se torna, ele próprio, uma pose exaustiva e autodestrutiva. Mas isso não quer dizer, por outro lado, que o amor venha com facilidade: o mundo branco é demasiado poderoso, complacente e ágil com humilhações gratuitas e, sobretudo, demasiado ignorante e inocente para isso. As pessoas são forçadas a fazer ressalvas perpétuas, e suas próprias reações estão sempre se anulando mutuamente. É isso, na verdade, que tem levado a todos, brancos e negros, à loucura. As pessoas estão sempre na situação de decidir entre a amputação e a gangrena. A amputação é rápida, mas o tempo pode mostrar que ela não era necessária – ou pode-se protelar demais a amputação. A gangrena é lenta, mas é impossível ter certeza de que se está lendo direito os sintomas. A ideia de passar o resto da vida aleijado é insuportável, como é da mesma forma intolerável o risco de inchar lentamente, e com agonia, devido ao veneno. E o problema, enfim, é que os riscos são reais, mesmo que não haja opções”.

***

“para james baldwin”

na maior parte do tempo
 os habitantes do gueto
quebram uns aos outros
ou quebram a si mesmos.

no gueto nada foge nunca
os habitantes do gueto
ou sofrem de gangrena
ou da perna que se amputa.

aqui servimos ao profeta
declama o pastor negro.
aqui ressalvas perpétuas
matam o gueto de medo.

mas chegará o momento
em que sumirá o gueto
numa inundação oculta.
lá fora restará a loucura.

23.5.17

"cornell"



tu davas aula às almas
mais perenes do falho
gigante que arremessa
na sombra de um triz
a escolha do amigo mau
numa valsa envelhecida
e sabias como ser uma
espécie de carlos santa-         
na tábua de nossa fera,
tuas madeixas jesuítas
o teu bigode chicano ao
piscar os olhos pelo limo.

pirata não eras, quando
muito não tiveste grana
a não ser a calça semibeg
e o bafo matinal tão típico
dos que são muito bonitos
e, simpáticos, casam-se,
morrem-se do núcleo
de fundar um novo tipo
de tristeza para poucos
desse encontro com tudo.

e nem sabes se mulher,
nem mãe de cujo nome
roubaste, na ausência
meu ódio pelo menor,
por ti que enforcarias
meu sonho mais velho,
pelo mais congregador,
o menos amado e tão
sempre antitalentoso
quanto o vibrato que,
menor que dylan menor
que bowie menos que
cobain menor que nós
estamos piores tão bem.

você era o mais bonito,
o menos interessante
porque você havia trocado
o nome de casamento
de sua mãe com seu pai
e tinha formado o próprio
nome: cornell, nada mais.

era apenas tua voz, era voz
a maior voz da necessidade,
bom amigo e o mais lindo...
com cinto não se faz morte,
não é possível com tamanha
invocação de todos nós tão sós,
menos interessante o que, grave,
pode morrer mas não saberíamos
viver se não fosse com a delicadeza
do agudo mais rouco do grunge,
amigo de todos inimigos cariocas,
dói tu, grunge, e dói a tua mãe
viciada em homens rejeitados
como todos nós e a nossa mais
pura tristeza e por um fio nas
ombreiras das formas d’afeição.

aqui estou contigo e é preciso
fingir que amo lou, dave, cohen
para ser contigo ou seja flanco,
uma pessoa que sonha e morre
e não dá a não ser o movimento
pálido de uma saída pela tangente
que é coisa abominável, chris, vês?
tu sabes muito bem a alegria clara
que era meu jogo de bafo, eu tava
na jogada da janela e eu nem sabia
que todo mundo sem mim no teu
bigode ralo de carlos santana novo,
tua síndrome de “quero estar bem
perto e nunca longe de você, chris”,
mesmo tendo vivido sem isso, você,
sem saber que é minha voz na torre
órfã de toda brutalidade viva
do amor debaixo de um cinto
no fim de um show em detroit
quando na verdade era melhor
ter eu mesmo, como um louco,
me matado porque há de se ficar
sem os melhores, que tu sabes,
cohen, dave jones, légua tirana
da extinta moral e cívica do dedo
diante de uma palavra modesta,
tratar o absurdo da perda nobre
de um desaparecido desse corpo,
o grande agudo dessa primeira
ideia de que só se ama o que é
limpo como a coisa que não levo
no bolso porque sou também teu
pai teu irmão tua coisa encalacrada
e somos sem saber nós tão bonitos
e esperamos tua verdade silenciosa
com o peso bochechudo do corpo
na chuva diante de dedos em reza.

2.5.17

"morre enfim belchior"


eu estava tendo uma terrível recaída
enquanto você morria num quartinho
perdido na parte sul que nos envolve.

você se voltou para dentro e morreu na santa cruz
daqueles que tatuam a pele quando doem de amor.
você morreu e eu talvez tenha perdido o amor.
você saberia me dizer a diferença disso tudo...

mas você não dirá mais nada e permaneceremos
como os robôs sem amor da tua ideia mais limpa.

entrei numa confusão, recaí, estava do lado certo
mas quebrei os óculos e não posso outra vez pagá-los.
talvez porque no fundo eu teime em não ver tudo.

e agora que você morreu, recair tornou-se um crime.
agora que talvez aos olhos do amor eu tenha morrido
você parte ao mesmo tempo enquanto eu não choro.

do meu modo lutarei tua morte como uma guerra.
tua ausência me dará certeza de que preciso ser bom.
a cada dia até o fim retomar o que se perdeu de amor
dar o que nem se tem com mãos cavadas em sangue.

eu te amo porque sou contigo um desterrado lírico
alguém sem chance alguma que ainda quer mais.
você gritou as feras por dentro da carne maltratada
você se mandou e deixou um arbusto de dúvidas
telegrama infinito tarde esquecida da nossa intuição.

porque é preciso sempre voltar para o interior –
é nossa única chance de abandonar as regras e ir.
você provou do veneno e fez dele um rega-bofe –
ainda precisamos escrever a canção da tua faca.

24.4.17

Uma enorme cozinha do coração pulsante


Sobre o livro "elefantes dentro de um sussurro", do Marcelo Reis de Mello
Azougue/Cozinha Experimental (poesia, 2017)

É muito difícil dizer qualquer coisa sobre o que teu livro me causou sem lembrar de ti, num dia chuvoso, de pé, numa época matreira ainda sem cheiro de golpe. Você cansado, implicante e amoroso, tornando-se um acadêmico com alguma chance, o que estabiliza e ao mesmo tempo esgota a cuca: esse lidar com as engrenagens. Mas acima de tudo me lembro de você como um escritor lidando com ser um homem, com ser um pobre coitado e – por que não? – com ser deus. Isso logo nos aproximou e, no dia em que te vi chorando num bar por um amor perdido, pensei: que bonito, um homem chorando sem ser um babaca. Aprendi muito sobre mim mesmo naquela noite ruim.

Daí você me aparece com o rascunho de um livro de poemas e me entrega no bar – como era mesmo o nome daquele boteco, Palhinha? – que ficava em frente à saudosa Travessa do Ouvidor, onde eu passava minhas tardes adquirindo amizades e pneumonia. São poemas com alguma relação semiótica com As Afinidades ou a Teoria das Cores do Goethe e o escambau, você me disse, então pensei: talvez ele tenha parado de chorar finalmente, e isso faz quanto tempo, cinco, seis anos?

Era ótimo, naqueles tempos pré-manicomiais, estar perto de uma voracidade ao mesmo tempo capaz de rasantes de lógica e sagacidade matuta. Era bom, em suma, naqueles tempos ainda não tão difíceis e tão mais adultos do que nós, estar perto de ti. Dividido entre o acadêmico cú de ferro e o brutamontes chorão de fala rápida capaz de apostar corrida contigo – e perder, é claro – numa rua movimentada do centro da cidade, em meio a garrafadas e corações despedaçados e punguistas de carteiras com bigodes bem aparados.

Tua poesia, já àquela época, estava impregnada da tua forma de viver. Apostar no incrível, jogar-se nas coisas que ama, amar só o que acredita, como aquele jogador de pelada capaz de chorar porque perdeu um jogo e vai ficar duas de fora. Mas aquele ainda era, permita-me equivocar se for o caso, um livro muito entranhado de filosofia de gabinete e pigmentos e adornos linguísticos e goethes e schillers e schlegels e tals. Um livro que ainda estava lutando, e perdendo, num ringue onde, gigantescos, surgiam a POESIA e a ACADEMIA.

Era preciso esperar, o gênio dizia e estava certo e agora eu entendo. Este teu livro esperou, como eu nunca pude fazer com os meus, que saem como cuspes verdes nos olhos de quem os lê. Sabendo que “perder é mais doce”, você perdeu ainda algumas vezes, enquanto eu sempre pensava: ele deve estar amando outra vez. E isso era fato, e que bom, você estava se atirando noutros espinhos, teus schillers e teus goethes vieram limpar tua pia, que estava suja numa sobra apocalíptica de mangas bichadas.

Os bichos a que chamo os poemas do teu livro foram crescendo, inchando, foram ganhando casca, acumulando “tártaros nos sonhos”, até se tornarem elefantes perfeitos. Silenciosos, fofinhos às vezes, sorrateiros, azul-cinzento, paternais até, eles te convidam para um baile doméstico entre apetrechos de cozinha e uma enciclopédia de termos que, você ainda pode, com força, presumir, revelarão em breve suas intenções psicóticas de abate e pulsão de achatamento e máquina lenta de conscientização.

Porque não podemos ser homens quaisquer, nem podemos ser poetas quaisquer, existem estes elefantes dentro de um sussurro. Porque aquilo que grita espera dentro do ouvido. E por anos você foi jogando fora os anéis, as unhas postiças, retomando os calos, os rasgos de combate, até jogar fora também as mãos e chegar na “escavação com muita coisa dentro, mas sem imagem”, porque “a boca é uma máquina ruim” – que tiro esse verso! – e falamos as imagens para matá-las.

Elefantes não falam, Marcelo, boa ideia, eles pesam e são bons de olhar, a certa distância. Senti raiva por ter caído em tão próxima e perigosa distância. A culpa é tua, teu livro é uma armadilha numa cozinha equipada com facas. Uma esfíngica máquina de catástrofes ao sabor dos olhos, uma engrenagem de vespas sem sossego, sobre frutas quase mortas, num mundo em que a “revolução é um nó na garganta”. Uma enorme cozinha do coração pulsante, para mim que, com minha lua em touro, finalmente fiz um risoto de gorgonzola e me senti bem. Tuas “frutas fraturadas” me lembraram de que sou, eu também, um morcego em cujo peito rangem os dentes do sol.

23.4.17

"cão de ouro"

enquanto fumo
ilicitamente
na varanda
da casa grande
onde trabalho
servindo doutores
mendigos nobres
gênios precoces
assassinos muito
bem comportados
enquanto fumo
pensando se devo
finalmente parar
de fumar e viver
vejo uma tal cena:

dois seres humanos passam
um traz dois cachorros pretos
velhos encoleirados nas últimas
outro traz um lindo cão dourado
daqueles com a língua de fora
novo o bastante para ser idiota.

os dois humanos são corteses
civilizadamente se aproximam
exibindo-se como adestradores hábeis
trazem frouxos os cães nas coleiras.

os cães que estavam tranquilos
distantes das intenções humanas
rapidamente dão-se conta uns dos outros
raivosamente começam a latir e avançar.

os humanos estacam, puxam com força as coleiras
dão gritos apaziguadores, dedos indicadores pressionam
as fuças dos bichos que, sem disfarçar sua alucinada
vontade de latir e morder e estraçalhar uns aos outros
sentam-se e levantam-se enquanto os humanos explicam
com insistência como se deve portar um cão civilizado:

os cães precisam gostar uns dos outros
qualquer cão deve ser obrigado a cheirar
o rabo de outro cão que passa e ter uma
conversa canina amigável com esse cão.

os cães não entendem, permanecem selvagens
imunes a pedidos agressivos e ordens simpáticas
os proprietários humanos, não sem constrangimento
trocam pequenas frases de consolo um com o outro

                                                       como
 
                “ele teve uma semana agitada
                                                      subimos a serra”
                                                   
                                                           ou

                  “a rua muito barulhenta
                                      geralmente ele é educado”.

bravamente os cães mantêm-se cães raivosos
o cigarro no fim, chega a chuva, torço por eles
então o humano proprietário do casal de cães
(“ele deve estar com ciúmes dela, deve ser isso”)
resolve amarrar o que suponho seja o cão macho
num poste de luz e traz sua companheira fêmea
arrastando-a até o lindo e jovem cão de ouro.

força a fêmea de costas de modo que o câine de aur
possa cheirar seu cu – isso parece impressionar –
o humano proprietário do golden dog se mantém
atento e ereto como se mostrar surpresa ou rejeição
pela cena o diminuísse como adestrador desse cão
cascata de maravilhas ou niágara do olimpo canino.

o cane doro cheira avidamente a fêmea preta velha
enquanto seu parceiro macho está amarrado num poste
e urra por dentro do que só pode ser um ódio canino
que parece bem mais potente do que o ódio humano
com que estou acostumado e me sinto até indiferente.

neste epílogo os humanos flertam-se calmamente
eu apago aos prantos minha guimba e sujo as mãos
e penso eu sou um cão eu sou um cão preto e velho
sou cão preto velho e farei risoto na lua em touro.

os proprietários exibem-se como adestradores hábeis
colecionadores de fotografias e cadeiras da bauhaus.

chien d’or cor de mel monta sobre a fêmea anciã
trazendo com força suas ancas ao chão imundo
os humanos estão sérios, são bons adestradores
estamos na rua em botafogo, tenho mãos sujas
os cães são quem são, eu torço por eles imundo.

desinteressados, selvagens, sedentos, raivosos.

a fila do cinema aumenta a cada instante imundo
os seres humanos são simpáticos e adestram bem. 

2.4.17

“o clã dos gatos”


jogados na rua sob a chuva
forte firma o que fortalece
a ânsia de sermos biônicos

nossa ração miúda de ratos
não maltrata as rotas garras
do nosso mais antigo afeto

quedamos no clã dos gatos
onde a vida pura geme nua
e os gritos invadem a noite

simbologia virá dos muros
e das roupas rasgadas do
roubo violento do golpe
à ponta de faca do uso
de loucos combustíveis
enquanto permanecemos
rijos no olho vesgo da noite
impávidos e sem liderança
lideramos gangues internas
arrastamos homens maus
com suas coleiras de caça
por quebradas explosivas
invadimos bolsas gordas
soterramos verdades rasas

nosso clã na vida acontece
estourando os holofotes
vivo à beira da indecisão
nosso clã na vida acontece
nesse amor trespassado
nessa coragem diminuta
nas férias como longas doenças
à esquerda do deus dos homens
à direita de toda vontade única
nosso clã na vida acontece
na ofensa estancada
no olho da compaixão
nosso clã na vida acontece
nas escadarias de odessa
enquanto descemos rolando
como nos velhos poemas de amor
nosso clã na vida acontece
com todo esse lindo engano
esse longo e tão a jato engano
do acontecimento mais profundo
e o mais superficial do mundo
pelo qual poderíamos passar.